Dormentes e o velho vício do poder, quando o passado quer governar o presente
A política tem dessas ironias que, de tão recorrentes, deixam de ser surpresa e passam a ser quase uma regra silenciosa. Em Dormentes, o rompimento entre Corrinha de Geomarco e Josimara Cavalcanti não é apenas o fim de uma aliança, é a confirmação de um enredo conhecido, o de quem sai do poder, mas não aceita, de fato, ter saído.
Josimara, que teve papel decisivo ao convidar Corrinha para compor a chapa em 2020, parece ter confundido padrinho político com dono da gestão. O gesto que, lá atrás, soava como confiança, virou, com o tempo, uma tentativa de tutela. E é justamente aí que mora o erro clássico, nenhum gestor eleito governa de joelhos. Corrinha não foi eleita para ser extensão de um mandato anterior, mas para imprimir sua própria marca.
O rompimento, portanto, não nasce de uma divergência repentina, mas de um desgaste acumulado. Nos bastidores, o que se comenta é que havia uma insistência incômoda da ex-prefeita em influenciar decisões, nomes e rumos da administração. Uma espécie de “prefeitura paralela”, algo que, cedo ou tarde, se tornaria insustentável. E se há algo que a política ensina é que dois comandos nunca coexistem no mesmo governo por muito tempo.
Ao escolher caminhar com Raquel Lyra, Jarbas Filho e Fernando Dueire, Corrinha fez mais do que uma opção eleitoral, fez uma escolha de independência. Já Josimara, ao se alinhar ao projeto de João Campos, tenta reposicionar seu capital político mirando a Assembleia Legislativa.
Mas é aí que entra o ponto central, e talvez o mais incômodo, candidatura não se sustenta apenas com passado, articulação ou padrinhos influentes. Falta o essencial. Falta voto. E, no interior, voto não se herda automaticamente, se constrói no presente. A leitura fria dos cenários aponta que a pré-candidatura de Josimara nasce com um problema estrutural, base fragilizada, território dividido e uma ruptura que, inevitavelmente, cobra seu preço nas urnas.
Há ainda um outro elemento pouco dito, mas muito sentido, o eleitor não costuma simpatizar com quem demonstra apego excessivo ao poder. A imagem de quem quer continuar mandando sem ter o mandato pode até funcionar nos bastidores, mas costuma ruir quando exposta à luz do voto popular. E política, no fim das contas, é isso, percepção.
No fim, Dormentes não vive apenas o fim de uma parceria. Vive um ajuste de forças. Corrinha escolheu governar. Josimara, ao que tudo indica, escolheu disputar. Mas entre querer e conseguir, há um abismo, e esse abismo, na política, costuma ser preenchido por uma única coisa, voto.









