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O bolsonarista que virou muleta da esquerda

 

Na política, há algo pior do que o adversário declarado: é o aliado disfarçado. E poucos personagens em Pernambuco hoje simbolizam tão bem essa contradição quanto o deputado Alberto Feitosa. Eleito sob a bandeira da direita, filiado ao PL e surfando na onda bolsonarista, Feitosa ocupa um dos cargos mais estratégicos da Assembleia Legislativa, a presidência da Comissão de Constituição, Legislação e Justiça, CCLJ. Mas, na prática, seu comportamento tem levantado uma pergunta inevitável: a quem ele realmente serve?

 

O episódio mais recente é emblemático. Em meio ao embate entre o Legislativo e o Executivo estadual, foi justamente o voto de desempate de Feitosa que derrubou vetos da governadora Raquel Lyra à Lei Orçamentária de 2026. A decisão contrariou o próprio relator da matéria e acabou ampliando a crise institucional.

 

Não foi um gesto trivial. Foi uma escolha política, e das mais claras.

 

Na prática, ao agir dessa forma, Feitosa se alinhou a setores que fazem oposição sistemática ao governo estadual, muitos deles ligados diretamente ao campo político do prefeito do Recife, João Campos, principal nome do PSB e da esquerda em Pernambuco. O mesmo PSB que, historicamente, sempre foi adversário do bolsonarismo que o deputado diz representar.

 

E não se trata de um caso isolado. Nos bastidores da Alepe, cresce a percepção de que o presidente da CCLJ tem adotado uma postura recorrente de enfrentamento ao governo Raquel, frequentemente favorecendo pautas e movimentos que interessam à oposição. Tanto que já houve quem o classificasse, dentro da própria Assembleia, como uma espécie de “advogado do PSB”, crítica que ele próprio tentou rebater.

 

Mas a política não se mede pelo discurso, e sim pelas atitudes. E aqui reside o ponto central da contradição, como um deputado que pede votos ao eleitor conservador, que se apresenta como defensor da direita, atua de forma tão conveniente para o avanço da esquerda no estado? Como alguém que veste a camisa do bolsonarismo se torna peça-chave em movimentos que fragilizam justamente um governo que não pertence ao campo lulista?

 

Não é apenas incoerência ideológica. É estratégia, e, ao que tudo indica, uma estratégia perigosa.

 

Porque, ao enfraquecer o governo estadual, Feitosa não atinge apenas Raquel Lyra. Ele abre espaço para o fortalecimento do projeto político de João Campos, que desponta como um dos principais adversários nas eleições de 2026.

 

Ou seja, enquanto o eleitor de direita acredita estar elegendo um representante para combater a esquerda, parte dessa representação pode estar, na prática, pavimentando o caminho para ela.

 

No fim das contas, a política cobra coerência. E o eleitor, mais cedo ou mais tarde, cobra posição.

 

Porque não existe meio termo quando se ocupa um lado. Ou se está com quem o elegeu,  ou se está servindo a outro projeto de poder.

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