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Com set que transforma clássicos nordestinos em house music, DJ Jota BoraViver conecta Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Falamansa e Geraldo Azevedo a uma nova experiência sonora para o São João. Foto: Divulgação

 

Com a proximidade do São João, o forró volta ao centro da cena cultural nordestina. Mas, além dos palcos tradicionais, das quadrilhas, dos arraiais e dos trios de sanfona, zabumba e triângulo, uma nova leitura dos ritmos regionais começa a ganhar espaço nas pistas. Em Pernambuco, o artista Jota BoraViver tem apostado justamente nesse caminho: transformar referências da cultura popular em música eletrônica, criando uma ponte entre tradição, memória afetiva e sonoridades contemporâneas.

 

No set “Tudo Vira House”, Jota revisita músicas conhecidas do público nordestino e brasileiro, como “Dona da Minha Cabeça”, de Geraldo Azevedo, “Ai Que Saudade D’ocê”, “Xote da Alegria”, do Falamansa, e “Sala de Reboco”, clássico eternizado por Luiz Gonzaga. A proposta é levar essas canções para uma estética de pista, com batidas eletrônicas, sem descaracterizar a força cultural que elas carregam.

 

Para o artista, o movimento não representa uma ruptura com a tradição, mas uma forma de mantê-la em circulação entre diferentes gerações.

 

“Eu cresci ouvindo essa música. O forró, o frevo, o coco, o maracatu e o manguebeat fazem parte da minha formação como pernambucano. Quando levo isso para o house, não estou tentando substituir a tradição. Estou criando outro caminho para que ela continue viva, inclusive para quem consome música de uma forma mais urbana, mais conectada às pistas e aos festivais”, afirma Jota BoraViver.

 

As referências do artista passam por nomes centrais da música brasileira e nordestina. Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro aparecem como matrizes da força rítmica e poética do Nordeste. Naná Vasconcelos surge como inspiração pela pesquisa sonora, pela percussão e pela liberdade criativa. Já Raul Seixas entra como referência de atitude artística, mistura de linguagens e independência estética.

 

“Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro são pilares. Eles traduziram o Nordeste para o Brasil com uma verdade muito grande. Naná me inspira pela pesquisa, pela experimentação, pelo som como identidade. E Raul entra muito pela liberdade de não se prender a uma fórmula. Tudo isso conversa com o que tento fazer hoje”, explica o artista.

 

A proposta de Jota também dialoga com uma característica histórica da música pernambucana: a capacidade de misturar referências sem perder identidade. Do frevo ao manguebeat, passando pelo coco, maracatu, ciranda, forró e pelas experiências urbanas mais recentes, Pernambuco consolidou uma tradição de reinvenção musical. Nesse contexto, a eletrônica aparece como mais uma camada de leitura para ritmos já conhecidos do público.

 

No período junino, essa mistura ganha ainda mais força. O São João movimenta cidades, palcos, artistas, turistas e públicos diversos. Ao aproximar o forró da música eletrônica, Jota busca apresentar uma experiência que conversa tanto com quem tem memória afetiva das canções tradicionais quanto com quem está habituado à linguagem dos DJs, dos remixes e das festas de pista.

 

“A ideia é fazer a pessoa reconhecer aquela música que marcou a vida dela, mas sentir de um jeito novo. Quando entra um xote conhecido dentro de uma batida house, acontece uma conexão muito bonita. Tem nostalgia, mas também tem novidade. É como se o arraial encontrasse a pista de dança”, destaca.

 

Para além da agenda junina, o trabalho de Jota BoraViver aponta para um movimento mais amplo de atualização da música regional. Em vez de tratar a cultura popular como algo restrito ao passado, o artista propõe uma leitura em que tradição e contemporaneidade convivem no mesmo território sonoro.

 

“O Nordeste sempre foi moderno. Às vezes, as pessoas acham que modernidade é copiar o que vem de fora. Para mim, moderno é olhar para a nossa própria cultura e entender que ela tem potência para dialogar com qualquer linguagem do mundo”, conclui.

 

Sobre o DJ Jota BoraViver

 

Jota BoraViver é artista pernambucano e desenvolve o projeto “Tudo Vira House”, no qual mistura música eletrônica com referências da cultura popular brasileira e nordestina. Em seus sets, transita por forró, frevo, maracatu, coco, manguebeat e house music, criando releituras contemporâneas para clássicos e sonoridades regionais.

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