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O Alerta Amarelo da Gestão João Campos

 

Em política, números são mais do que meras estatísticas; são termômetros do sentimento popular e, por vezes, presságios de tempestades futuras. A recente pesquisa do instituto Veritá, que mapeou a aprovação dos prefeitos das capitais brasileiras, trouxe um desses números para a gestão de João Campos (PSB) no Recife: 54,4% de aprovação. Embora à primeira vista possa parecer um resultado positivo – afinal, mais da metade da população aprova o governo –, uma análise mais aprofundada revela um cenário de estagnação e um sinal de alerta que não pode ser ignorado pelo Palácio do Capibaribe.

 

O dado, coletado em dezembro de 2025, posiciona João Campos na 10ª colocação no ranking nacional. Em um país de dimensões continentais, figurar no top 10 pode soar como um feito. Contudo, o diabo mora nos detalhes. O mesmo levantamento mostra o prefeito de São Luís, Eduardo Braide, com impressionantes 90,6% de aprovação, e o de Maceió, JHC, com 77,3%. Ambos são gestores de capitais nordestinas, inseridos em contextos socioeconômicos semelhantes ao do Recife. A comparação direta expõe uma fragilidade incômoda: por que a gestão de Campos não consegue decolar e alcançar os patamares de seus vizinhos?

 

A resposta pode estar na nota média atribuída pelos recifenses aos 51 serviços municipais avaliados pela Veritá: um modesto 5,4. Essa nota, idêntica à de prefeitos como o de Florianópolis e João Pessoa, traduz uma percepção de mediocridade. Não é uma administração reprovada, mas está longe de ser percebida como transformadora ou excelente. É a gestão do “regular”, que cumpre o básico, mas não inspira entusiasmo nem gera a sensação de avanço significativo na qualidade de vida da população. Para um político jovem e que carrega um capital político e familiar tão robusto, a falta de brilho nos olhos do eleitorado é um sintoma perigoso.

 

Essa aprovação de 54,4% representa, na prática, uma decadência do potencial. Significa que para quase metade da cidade (45,6%), o trabalho realizado ou não é satisfatório ou é simplesmente indiferente. É uma base de oposição e descontentamento grande demais para ser ignorada. Em um cenário político cada vez mais polarizado e volátil, ter quase um em cada dois cidadãos desaprovando a gestão é como navegar com um rombo no casco: a embarcação ainda flutua, mas sua capacidade de manobra e resistência a crises fica seriamente comprometida.

 

O ranking da Veritá, ao colocar Recife atrás de São Luís, Maceió e até mesmo Aracaju (60,2%) no contexto nordestino, sinaliza que a narrativa de uma gestão moderna e eficiente, tão propagada nas redes sociais do prefeito, não está se convertendo em aprovação popular massiva. A comunicação pode ser ágil e digital, mas a realidade do asfalto, do posto de saúde e da sala de aula parece impor um teto ao seu crescimento.

 

Portanto, o resultado da Veritá não deve ser comemorado como uma vitória. Ele é, na verdade, um espelho que reflete uma gestão que, após anos no poder, ainda não conseguiu convencer plenamente a que veio. A aprovação majoritária, porém tímida, indica uma decadência não de popularidade absoluta, mas do encanto e da expectativa que marcaram o início do mandato. O alerta está dado: sem uma correção de rota que transforme a percepção de “regular” para “bom” ou “ótimo” na vida real do cidadão, a base de 54,4% pode se revelar uma fundação de areia, incapaz de sustentar projetos políticos mais ambiciosos no futuro.

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