Pesquisar

Compartilhe esta matéria

Há momentos em que a política precisa dar um passo atrás. Situações de calamidade, como as chuvas que castigam Pernambuco, exigem menos palanque e mais coordenação, menos discurso e mais ação silenciosa. Quando a dor coletiva vira pano de fundo para projeção individual, algo está fora do lugar.

 

A recente movimentação do ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB), ao surgir em vídeo ao lado de gestores municipais e se colocar como ponte direta com Luiz Inácio Lula da Silva, levanta um debate inevitável: até que ponto há genuína intenção de ajudar, e em que momento isso se confunde com antecipação de um discurso eleitoral?

 

Não se trata de negar a importância de articulações institucionais. Elas são essenciais. Mas é difícil ignorar o contraste entre o discurso atual e o histórico recente. O Recife, governado por sucessivas gestões do mesmo grupo político, convive há décadas com problemas estruturais graves: alagamentos recorrentes, áreas de risco negligenciadas e um sistema de prevenção que, na prática, nunca esteve à altura dos desafios. Ao longo de anos, viu-se uma cidade onde, para muitos, a comunicação institucional parecia mais robusta que as obras de contenção.

 

Diante disso, a tentativa de assumir protagonismo em meio a uma crise estadual soa, no mínimo, deslocada. Liderança não se constrói apenas na retórica ou na capacidade de aparecer nos momentos críticos. Mas, sobretudo, na entrega consistente quando se teve a caneta na mão. E essa régua é implacável.

 

Há também um risco maior: o de atrapalhar o que deveria ser um esforço conjunto. Em cenários como este, a prioridade precisa ser a convergência entre municípios, estado e União. Qualquer ruído político, qualquer disputa por protagonismo, pode comprometer a agilidade das respostas e, consequentemente, custar caro para quem está na ponta, a população afetada.

 

No fim das contas, a tragédia não pode ser transformada em vitrine. Pernambuco precisa, agora, de menos encenação e mais responsabilidade. Porque, quando a água sobe, o que se espera dos líderes não é performance, é solução.

Compartilhe esta matéria

© Copyright Blog Pernambuco Urgente. 2021. Todos os direitos reservados.

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do autor.